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18 de Agosto de 2010

CARTA PARA AS MÃES DE BRASÍLIA

De: Michel Platini
Para: Zuleide (Mãe)

(Crônica publicada no Correio Braziliense no dia 08/06/2009)

Essa semana o meu encontro com Brazlândia, me trouxe à memória aquela frase do Belchior que diz: “ As lágrimas do jovem são fortes como um segredo.” Sabe por que mãe? Porque Brazlândia era puro choro . Dessa vez não pude visitar o Carlinhos, a Cris ou o Nicolas. Fui me juntar às varias mães que perderam seus filhos para a violência. Desculpa informar, mas Brazlândia deixou a muito de ser aquela cidade calma que você conheceu. Lembra quando fomos morar lá? Fugíamos da criminalidade. A senhora como sempre tentando o melhor pra mim e meus irmãos foi buscar a tranqüilidade de um bairro na pacata cidade que adotamos como terra natal.
Mãe... éramos quase quinhentas pessoas, quase todas mães e pais que, órfãos de seus filhos, choravam a perda de meninos e meninas que morreram sem precisar morrer. A cada esquina que passávamos nos deparávamos com uma homenagem, uma espécie de ritual feito para lembrar as vidas que foram arrebatadas pelas esquinas e pelos acasos da vida.
Lembrei de tantos colegas, filhos de Brazlândia, com o quais estudei e partilhamos das ruas e brincadeiras. Jovens que morreram por um cigarro, uma bebida, um tênis. Mortes causadas pela ausência de política e pelo excesso de descompromisso das autoridades tanto locais quanto nacionais com a nossa juventude já tão esquecida, sofrida e afônica, presa em seus desejos de mudança e coragem para enfrentar a vida sem medo e sem preocupação.
Como todos, chorei, nossas lágrimas lavaram as ruas. A cada rua que passávamos encontrávamos mães e pais que também perderam seus filhos e, com eles, foram perdendo o sentido da vida, vida invertida por não terem aprendido a superar a morte que vem assim, tão de repente, sem aviso, sem doença, a morte matada.
Meus colegas assassinados pelas armas, frutos desse processo capitalista, cruel, inesperado e não planejado. Vítimas das administrações que passaram e da atual que também não investe em cultura, lazer, educação e outras políticas básicas para uma formação natural na vida de qualquer pessoa.
Com um nó na garganta, choro silenciosamente para não chamar atenção. Assim como as mães e pais que continuam a entregar seus filhos aos céus, aos deuses e aos anjos, eu encerro e peço que a senhora inclua em suas orações as mães de Brazlândia que te falei e o Marquinho, João, José, Carlinhos, Marcio, Claudio, Cris, Keila, Adélia, Tereza, Dandara, Larissa, Maria, Nicolas, Ítalo Denis e todos os jovens que por não terem peitos de aço estão sujeitos à violência enquanto os governantes seguem suas vidas e se recusam a ouvir as orações, os choros e os lamentos da população carente de políticas públicas que garantam a nossa segurança e a dos nossos filhos.

(Michel Platini – Jovem de 26 anos – interprete de LIBRAS - Presidente da AMEM/DF - Conselheiro no Conselho de Direitos Humanos/Saúde do DF – Militante no segmento de pessoas com deficiência.)

 

 

30 de Maio de 2010



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Michel Platini - Telefone: (61) 8141-3113 (Operadora Oi)
E-mail: michelplatini@michelplatini.com.br